As nove páginas que mudaram o mundo

Dez anos passados do paper de Nakamoto, aquelas nove páginas foram poucas perto de grandes obras da humanidade, mas sem dúvidas aquela sequência de palavras não-cifradas traz grandes oportunidades.

Algumas ideias são tão poderosas que não podem ser medidas em palavras. No dia 31 de outubro de 2008, um link para um artigo sobre um protocolo descentralizado para o envio e o recebimento de unidades digitais de dinheiro foi publicado numa lista de emails sobre criptografia, e replicado em alguns outros fóruns afins. O que poderia passar despercebido, dada a humildade de seu autor ao apresentá-lo ao mundo, na verdade era o marco inicial de um sistema que virou sinônimo de revolução econômica, social e, principalmente, tecnológica: a blockchain.

Passados quase 10 anos desde então, o assunto foi saindo do mundo cypherpunk, onde ficava restrito a um grupo pequeno, mas brilhante e apaixonado, de entusiastas da computação que acreditavam no poder da criptografia e da privacidade como forma de resistência às mais variadas formas de opressão, vigilância e controle social. Hoje, chegou a locais jamais imaginados, como o das instituições financeiras tradicionais ou ao mainstream da mídia local, onde pôde ser visto até mesmo no Jornal Nacional, no final de 2017, quando muitos chegaram a  vociferar “vendam suas criptomoedas!”. Mas que história é essa, afinal?

Vamos começar examinando uma empresa que chama a atenção no mundo todo, sempre que o assunto é blockchain: a ConsenSys. Isso nos trará bons insights sobre a motivação e a forma que a revolução em torno dessa tecnologia tem tomado. A localidade onde está situado o principal escritório da ConsenSys diz muito sobre a personalidade da companhia. Situada em Bushwick, no Brooklyn, estabeleceu-se num antigo prédio industrial, com fachada de tijolos parcialmente pichada e adesivada. Tudo isso, é claro, numa região que outrora era famosa por gangues violentas e hoje tem charme de descolada.

 

Trata-se de um perfeito retrato da rebeldia contra o sistema vigente. O modo de trabalho deles reflete isso em quase todo o espaço físico. Salas grandes, sem baias ou divisórias, sem muitas formalidades ou “dress codes”, sem hierarquia rígida, sem locais fixos para se sentar. Trabalham no escritório de Nova York, ou nas recentes salas abertas em Dubai e em Londres, onde conduzem projetos transformadores. Ou atuam de casa ou de um hotel mesmo, onde quer que se estejam no mundo. Independente de se acreditar nele, dois fatores são evidentes: esse é um movimento global e integra gente de todo o tipo.

É interessante observar que boa parte dessa cultura organizacional latente na ConsenSys vem desde sua fundação por Joseph Lubin em 2015. Veterano em múltiplos campos, que vão da robótica aos fundos de investimento, Lubin se graduou em Ciência da Computação em Princeton. Desde então, como já disse em diferentes ocasiões, tem buscado independência em sua carreira e descentralização para o mundo nos projetos que conduz. Tendo descoberto com fascínio o Bitcoin ainda em 2011, Lubin anteviu o potencial do que o protocolo permitiria fazer se fosse generalizado para além das transações financeiras.

Com isso em mente, e junto a outros prodígios como Vitalik Buterin e Gavin Wood, co-fundou a Ethereum. Como é de conhecimento dos entusiastas do mundo cripto, a plataforma é voltada desde sua incepção à criação de aplicações descentralizadas de diversas naturezas, a partir da operacionalização de contratos inteligentes em sua blockchain pública. Nesse contexto, a ConsenSys se projetou com a missão de tornar em produtos e serviços reais as promessas teorizadas por muitos, até mesmo anos antes, a respeito do que se poderia fazer com uma blockchain pública de uso geral, notadamente a Ethereum.

E as coisas parecem caminhar bem, dado que a companhia já conta com mais de 570 pessoas, entre integrantes fixos e contractors mundo afora, com cerca de 250 deles atuando na sede em Nova York. Em 2017, inclusive, a empresa lançou um amplo espectro de projetos, com direito a um fundo de investimento de 50 milhões de dólares, uma escola de programação e plataformas para o financiamento coletivo de obras audiovisuais.

Além disso, como nos detalhou Andrew Keys (Head of Business Development da ConsenSys) durante a visita que fizemos à sede da empresa, a ConsenSys está integralmente comprometida com o desenvolvimento do core, do coração, da infraestrutura por trás dessas tecnologias. Isso significa que lá dentro não se espera criar apenas aplicações de uso para o consumidor final, mas também ferramentas a partir das quais qualquer usuário vai poder ser um pouco mais dono de si mesmo, de seus dados ou de sua identidade, assim como o Bitcoin tornou possível qualquer indivíduo ser seu próprio banco.

Especificamente para a plataforma Ethereum, eles estão construindo e dando suporte integral a importantes aplicações como Truffle e Infura, imprescindíveis para o teste e a implementação de aplicações descentralizadas, e MetaMask, interface amigável que permite a um navegador comum como o Google Chrome interagir com dados e aplicações baseadas na blockchain. Além disso, projetos do porvir como o balanc3, o uPort (já disponível em sua versão de testes) e o Open Law, desenvolvido em parceria com o professor e pesquisador Aaron Wright (na foto abaixo) da Cardozo Law School, irão transformar completamente três áreas tradicionais: respectivamente, a contabilidade, a gestão de identidades e os acordos legais.

E quando há grandes mudanças a caminho, o mercado não demora a reagir. O que há 2 ou 3 anos era tratado com profundo ceticismo tem tomado de assalto o mainstream, por vezes ainda confuso. Os Bitcoins, Ethers, Moneros e outros milhares de criptoativos e plataformas somadas já representam uma economia de centenas de bilhões de dólares em capitalização de mercado. Como também nos lembra Lubin, redes como a Ethereum serão sempre tão fortes quanto o número de entusiastas, desenvolvedores e empresas colaborando ativamente na construção delas e de aplicações nelas baseadas.

Com esse fator em mente, foi lançada a Enterprise Ethereum Alliance, que inclui, além da ConsenSys, nomes de peso de indústrias tradicionais, a exemplo de Microsoft, Intel, Banco Santander, J. P. Morgan, dentre centenas de outros, incluindo startups e frentes de pesquisa acadêmica. O que todos esses nomes estão buscando são formas de colaborar para o desenvolvimento e a implementação de instâncias privadas da Ethereum em seus negócios, na forma de blockchains permissionadas. O estabelecimento de algo como um “padrão” nesse sentido poderá tornar fácil a interoperabilidade, ou mesmo a completa migração no futuro, de serviços corporativos baseados na tecnologia blockchain para a rede pública da Ethereum, a fim de tomar parte de todos os benefícios que tem a oferecer quando atingir sua maturidade.

Sentimento parecido pairava sobre o espaço colaborativo LMHQ (Lower Manhattan Head Quarter) também em Nova York, no qual estivemos para um brunch seguido de uma palestra sobre Bitcoin e blockchain em geral ministrada por Nolan Bauerle, diretor de pesquisas da Coindesk. Duas grandes ideias foram apresentadas e pensamentos puderam ser derivados na sequência.

O primeiro destaque diz muito sobre a diferença cultural do desenvolvimento ágil contra os projetos mais tradicionais da engenharia de software. O mundo blockchain tende para matemática, criptografia, métodos formais, análise e prova. É de se esperar que os smart contracts prezem por caminhos de desenvolvimento de software mais tradicionais, em especial se focados na indústria financeira, tão conservadora, ainda que uma das mais impactadas pelas transformações que traz a blockchain. A segunda e a mais abrangente ideia trata da mais nova corrida espacial, agora num mundo multipolarizado. Os países estão investindo pesado na “Máquina da Confiança” (tal como a The Economist definiu a tecnologia blockchain).

Nos EUA, o setor privado domina os investimentos em diversos projetos. Os estados daquela federação brigam por atrair empresas do setor, correndo para avançar e preencher o gap regulatório o quanto antes. Nos Emirados Árabes Unidos, é forte o investimento estatal em dominar a tecnologia. E assim cada país busca suas sendas: Estônia, Cingapura, Canadá, Rússia, Japão e Brasil. Eis aí a janela de oportunidade para o nosso país, a possibilidade de colocarmos o primeiro astronauta a aterrissar em solo lunar (ou será em Krypton?), e as conseqüências deste feito na divisão internacional do trabalho.

Uma das possibilidades é fazer o dinheiro ser rastreável (coisa que em certos casos hoje não acontece, como naquele apartamento noticiado com malas cheias de papel-moeda). O mais interessante é que o Brasil percebeu que há grandes vantagens da tecnologia. Vários órgãos públicos estão trabalhando em provas de conceito e/ou projetos pilotos: BNDES, BACEN, Serpro, dentre outros. Há projetos também nas universidades, em empresas do setor privado, etc. O Brasil está na vanguarda, junto com outros.

Dez anos passados do paper de Nakamoto, aquelas nove páginas foram poucas perto de grandes obras da humanidade, mas sem dúvidas aquela sequência de palavras não-cifradas traz grandes oportunidades. Elas se espalham por setores variados, dando-nos conta do quão democráticas e transnacionais podem ser. Vão desde o Santander que prevê economias da ordem de 15 a 20 bilhões de dólares por ano até 2022 como consequência da utilização da tecnologia blockchain no âmbito financeiro até Joseph Lubin e Vitalik Buterin que querem “apenas” mudar o mundo a partir de mecanismos mais racionais, inclusivos e descentralizados. Por fim, é claro, é preciso saber lidar com aqueles que ainda não acreditam que o homem pisou na Lua.

 

Gabriel Aleixo é pesquisador do ITS Rio e diretor de conteúdo do Infochain
José Nogueira é engenheiro de software do BNDES

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