Blockchain para as Finanças do Clima

O despertar desse potencial por parte de entidades desse e de outros setores pode ser radicalmente transformador.

Firmado em dezembro de 2015, o Acordo de Paris é um tratado internacional voltado à questão climática. Dentre suas ambições, pode-se destacar o fomento a economias mais limpas. Isso é, motivados por frear o aquecimento do planeta e reduzir a dependência de tecnologias que emitem gases poluentes na atmosfera, os signatários se comprometeram a organizar os recursos necessários para que práticas efetivas de mitigação e adaptação nesse sentido sejam adotadas.

Espera-se, por exemplo, que como resultado do acordo já em 2020 alguns resultados preliminares sejam observáveis na prática, com métricas específicas também para os anos-referência de 2025 e 2030. Uma importante ferramenta para que isso se torne possível são os recursos das chamadas Finanças do Clima (Climate Finance, em inglês).

A expressão é utilizada para designar o conjunto de instrumentos para o financiamento de medidas favoráveis à questão climática em âmbito mundial, englobando os múltiplos fluxos de dinheiro que ocorrem entre entidades públicas, privadas e do terceiro setor. Esses montantes podem perpassar bancos nacionais de desenvolvimento, organizações não-governamentais, fundos internacionais, empresas e afins.

Naturalmente, em diversos momentos, trata-se de um fluxo financeiro longo e complexo, o qual deve seguir certas especificações, algumas das quais envolvendo normas internacionais de compliance. Quebrando em partes o que compõe esse ecossistema como um todo, pode-se perceber como a tecnologia blockchain pode ajudá-lo imensamente a ganhar em eficiência e transparência, pela forma precisa como se encaixa às necessidades do setor de Finanças do Clima.

Isso porque, no final das contas, todas essas partes, por vezes distantes em termos geográficos ou culturais, devem estabelecer uma relação de entendimento mútuo, prestação de contas e confiança umas com as outras. Sem isso, corre-se o risco que as ações necessárias para o cumprimento dessas metas jamais sejam tomadas adequadamente, por falta de acesso aos recursos ou como consequência de entraves burocráticos.

É justamente aí que a tecnologia blockchain poderia, e deveria, entrar. Como uma estrutura informacional na qual tudo que é armazenado se torna imutável, acessível e transparente. Logo, uma base de dados incorruptível e impossível de ser controlada unilateralmente, sendo a auditoria dela abertamente possível para todas as partes interessadas, torna-se o registro ideal para todo o histórico de transações financeiras, prestação de todas e afins.

Ademais, a blockchain constitui o ambiente perfeito para a operacionalização de parte das regras de negócio referentes às Finanças do Clima, precisamente aquelas que já podem ser expressas na forma de contratos inteligentes. Não se conhece hoje tecnologia mais robusta para o estabelecimento de uma governança multissetorial entre todos os agentes de uma determinada economia, como é a do clima.

Pode-se, rapidamente, reduzir de forma drástica os altos custos e longos prazos envolvidos em múltiplas etapas de elaboração de relatórios de compliance. A própria remessa de valores correspondentes aos fluxos financeiros internacionais que buscam equilibrar as práticas pró-clima entre diferentes nações pode ser feita através de uma blockchain. Diferentes projetos, a exemplo da Stellar, já buscam orientar seus protocolos para a oferta de serviços financeiros de baixíssimo custo para projetos de impacto.

O despertar desse potencial por parte de entidades desse e de outros setores pode ser radicalmente transformador. Significaria selar, de uma só vez, o fim de qualquer possibilidade real de corrupção, ineficiência e burocracia em uma indústria inteira. Não por acaso, algumas autoridades do setor já despertaram para o potencial da tecnologia e afirmam: não apenas a tecnologia veio para ficar, como irá transformar o mundo a partir do que proporciona para inúmeras iniciativas que buscam tornar o planeta em um espaço melhor.

 

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