O Futuro do Dinheiro

No futuro, lembraremos de 2008 nos nossos livros de história. O ano em que uma crise abalava a confiança de todos no sistema financeiro.

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No futuro, lembraremos de 2008 nos nossos livros de história. O ano em que uma crise abalava a confiança de todos no sistema financeiro. O ano em que Satoshi Nakamoto lançava o primeiro artigo sobre o Bitcoin. O ano em que era fundada a Singularity University na Califórnia. O que esses eventos têm em comum?

Um mundo exponencial

A Singularity University vem estudando nos últimos anos organizações que têm um desempenho mais de 10 vezes melhor que outras organizações do mesmo setor. Essas organizações passaram a ser chamadas de Organizações Exponenciais e as tecnologias que as habilitam de Tecnologias Exponenciais.  

Diversos bens e serviços analógicos vêm passando pela curva da exponencialidade e vivendo as fases que a Singularity chama de 6Ds: primeiro, o bem ou serviço é digitalizado, habilitando o início do crescimento exponencial; depois, a tecnologia passa por um período de crescimento dissimulado, onde, apesar de estar melhorando rapidamente, não é possível perceber essa melhora; em algum momento a tecnologia causa uma disrupção no mercado em que está inserida. A partir daí a experiência é desmaterializada, desmonetizada e, ao final do processo, democratizada.

Várias indústrias passaram por essa curva, como a indústria da fotografia. Saímos de um mundo de fotos analógicas com rolos de 12 poses, vimos as máquinas digitais superarem as analógicas para, depois, serem engolidas pelos aplicativos de celular, permitindo que uma quantidade de pessoas muito maior registre momentos felizes.

O dinheiro digital

Durante muitos anos o mundo discutiu como criar um dinheiro digital. As pessoas sempre esbarravam em problemas. Como resolver o gasto duplo? Até que em 2008, no meio de uma crise que abalava a confiança mundial na indústria financeira, um personagem desconhecido lançava um artigo chamado “Bitcoin: um dinheiro eletrônico P2P”. Esse artigo e o código criado para a rede bitcoin baseado nele criaram as condições para que o dinheiro fosse digitalizado.

E depois que alguma coisa é digitalizada acontece o quê? Começa uma fase de crescimento dissimulado. Nos últimos anos, a tecnologia por baixo do bitcoin (a hoje famosa Blockchain) vem avançando. O mercado das criptomoedas vem ganhando força com a criação de milhares de moedas digitais. Até que, em 2017, as criptomoedas começaram a invadir as páginas de todas as revistas e jornais, tirando o sono de muitos banqueiros centrais.

Será que estamos prestes a viver uma disrupção? Qual será o futuro das moedas? Teremos versões digitais das atuais moedas fiduciárias ou moedas com políticas monetárias controladas pelas redes? As pessoas vão preferir acreditar nos estados nacionais ou em redes controladas por algoritmos computacionais?

Só o futuro trará a resposta para essas perguntas, mas hoje já é possível observar um fenômeno muito relevante habilitado pelas criptomoedas. O Bitcoin e, especialmente, o Ether estão permitindo uma …

… Democratização do investimento de risco

Apostar em ideias é uma operação difícil e custosa hoje em dia. Se alguém tem uma grande ideia e resolve colocá-la em prática, criando um produto ou serviço, precisa de investimento. Como é possível obter esses investimentos? O risco é alto, pois o retorno não é garantido. O volume não é baixo, pois, para tirar uma ideia do papel, em geral é necessária uma quantidade significativa de capital. As proteções para o pequeno investidor são muitas, pois vários países assumem que ele não está preparado para os riscos e para as perdas envolvidas num investimento desse tipo. A solução então passa por criar um excesso de regulações e proteções.

Esse cenário cria um dos mecanismos perversos do capitalismo financeiro. De um lado, temos pessoas com grandes ideias que não conseguem financiar seus projetos ou que para financiá-los precisam oferecer um retorno muito alto aos capitalistas de risco. Do outro lado, temos pequenos investidores que têm conhecimento e vontade de arriscar, mas não tem volume suficiente para se livrarem das regulações e do custo operacional de um investimento de risco. Para intermediar essa relação, os grandes capitalistas captam o dinheiro dos investidores e os remuneram com taxas de investimentos conservadores, financiam os projetos que conseguem passar por uma série de obstáculos para provar que têm valor e ganham a maior parte do lucro por assumirem o risco e precificá-lo.

E se esse cenário mudasse? E se existisse um “matchmaker” entre pequenos investidores dispostos a tomar risco para apostar em projetos que acreditem e empreendedores que queriam criar novos produtos e serviços? Essa solução já existe e se chama ICO. Os ICOs podem trazer a democratização do capital de risco, permitindo que o lucro do investimento em ideias seja pulverizado entre muitos pequenos investidores.

O que é um ICO?

ICO é um acrônimo para Initial Coin Offering, mecanismo usado por várias iniciativas do ecossistema crypto para se financiar. Boa parte dos ICOs começa com um White Paper, onde o fundador explica a sua ideia e proposta de valor. Para realizar essa proposta de valor, o fundador pretende captar recursos através da emissão de um token que será comprado pelos investidores. No futuro, o token poderá ser convertido para outra moeda ou usado no acesso ao bem/serviço que será produzido e comercializado pela empresa que está sendo criada.

Com os ICOs, vários empreendedores estão tirando suas ideias do papel de forma mais rápida e simples. Muitos pequenos investidores estão acessando um tipo de investimento que não conseguiam acessar antes. Mas, e os riscos? Como já disse o famoso Ben Parker, tio do Homem-Aranha: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

Ao entrar num ICO sem assessoria, você assume o trabalho realizado pelos analistas financeiros e bancos/instituições financeiras. Um analista financeiro analisa o investimento, precifica riscos, avalia seu perfil e te diz qual o melhor investimento a fazer. Analistas financeiros custam caro. Se você tem poucos recursos para investir, provavelmente não terá acesso a um profissional desse tipo, nem a produtos financeiros mais complexos e arriscados. Um banco cuida de riscos operacionais. Se você perder sua senha, o banco tem um processo para recuperar. Se um hacker invadir sua conta, o banco se responsabilizará por isso.  Se você cometer um erro na transação, é possível realizar um estorno em alguns casos.

Num ICO, você está sozinho na selva e terá que tratar todos esses riscos ou ficar exposto a eles. Será que as pessoas realmente querem assumir esse tipo de responsabilidade? Será que vão surgir gestores de investimentos em criptoativos que farão o papel dos analistas e dos bancos? Será que esses serviços terão um custo mais acessível permitindo uma democratização ampla?

Mais uma vez temos que aguardar que o futuro nos traga respostas. E o que fazer enquanto isso? Tentar entender o que está acontecendo nesse admirável mundo novo onde até o bem mais precioso do mundo, o papel-moeda, está se transformando numa sequência de 0s e 1s.

 

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