A tecnologia molda a sociedade ou a sociedade molda a tecnologia? Eis a questão!

Por Vanessa Almeida

Gerente da Iniciativa Blockchain no BNDES

No final da década de 90 do século passado (século passado?), fui apresentada aos softwares do tipo Groupware. Groupware é o nome dado ao conjunto de softwares com capacidade de suportar a colaboração em grupo, seja ela para aprendizado ou para trabalho. As aplicações do tipo groupware eram a base para diversas pesquisas de duas linhas que foram ganhando importância no meio acadêmico: o trabalho cooperativo suportado por computador (CSCW) e o aprendizado colaborativo suportado por computador (CSCL). Naquele momento, discutíamos como os sistemas de informação poderiam fazer bem mais do que controlar folhas de pagamento e estoques. Acreditávamos que os sistemas poderiam ajudar as pessoas nos 3Cs: coordenação, cooperação e comunicação.
 
Propus a aplicação dos sistemas de recomendação no suporte ao aprendizado organizacional no meu mestrado em CSCL. Quase 20 anos depois, me sinto uma espécie de arqueóloga do passado recente ao contar essa história. Para muitos adolescentes não existe mundo sem Groupware, afinal o que são as redes sociais, os aplicativos de trânsito, as plataformas de ensino, etc, etc e etc, senão softwares que existem para suportar a colaboração em grupo? O Groupware se tornou tão onipresente que acabou se transformando num conceito invisível e esse nome praticamente não é mais utilizado. 
 
O conceito de colaboração extrapolou os softwares e foi se tornando um mantra no mundo dos negócios. Ao olhar para a tecnologia que habilitava a colaboração começamos a pensar em formas de colaborar que extrapolariam a tecnologia. Pensamos em espaços físicos que incentivam a colaboração, como os co-workings; em metodologias para facilitar a geração de ideias em grupo, como o Design Thinking.  Pensamos em formas de ensinar, aprender e compartilhar informações, as quais podemos executar sem o tal software que suporta a colaboração em grupo. A colaboração passou a ser habilitada por mesas compartilhadas, papéis colados nos vidros dos escritórios, happy hours nas empresas. De uma certa forma o mindset de alguns gerou uma tecnologia que acabou impactando no mindset geral. Será que é sempre assim?
 
Mas afinal, o que isso tem a ver com Blockchain? O mesmo movimento que aconteceu com o Groupware pode acontecer com a tecnologia Blockchain. Algumas pessoas criaram uma tecnologia porque acreditavam na ideia de descentralização. Embora outras características da tecnologia estejam sendo exploradas (com potencial de gerar muito valor!), como a inviolabilidade das informações, a possibilidade de criar transações não fraudáveis e a retirada de intermediários em alguns tipos de transações financeiras, Blockchain é em essência sobre descentralização. Sobre distribuir o poder concentrado em governos e organizações para as pessoas. Dizemos que a internet fez isso com a informação e o Blockchain fará isso com o valor.
 
A internet, como rede e camada de protocolos, possibilitou a criação de diversas aplicações que usam sua estrutura base. A tecnologia Blockchain é uma tecnologia de base, de construção de redes descentralizadas, de protocolo para operação dessas redes. A partir daí, surgirão muitas aplicações, algumas das quais nem conseguimos pensar nesse momento. Não se pensava em uma séria de aplicações que temos hoje, quando a internet não passava de rede com uma camada de protocolos para comunicação. A onda de aplicações construídas em cima da internet, que viabilizaram a colaboração, só veio no que chamamos de Web 2.0, uma segunda onda de aplicações da internet. O que tínhamos antes disso, eram empresas já estabelecidas divulgando informações através da rede e vendendo produtos. Alguns poucos conhecedores das ferramentas para criação de conteúdo podiam criá-lo e compartilhá-lo. 
 
As aplicações que vão surgir utilizando a tecnologia Blockchain não poderiam ter sido criadas antes? Algumas sim, outras não. Algumas dessas aplicações só farão sentido porque a Blockchain vai reduzir drasticamente o custo de torná-las realidade. Outras, vão surgir porque as pessoas vão começar a pensar que é possível descentralizar, que a descentralização gera valor. Ideias que poderiam ter surgido antes, serão colocadas na mesa junto com a ascensão do conceito de descentralização.
 
Alguns podem se perguntar porque o Facebook só surgiu no final da primeira década do século XXI, se a tecnologia necessária para construí-lo já estava lá desde o século anterior. Alguns podem se perguntar porque várias aplicações que tentavam fazer coisas parecidas com o que as redes sociais fazem hoje, explodiram junto com a bolha das “ponto com” no início dos anos 2000. Depois que a história acontece, podemos olhar para trás e construir várias explicações sobre como chegamos até aqui. Uma das explicações para o sucesso das redes sociais atuais e para o fracasso de tentativas anteriores é que não tínhamos maturidade para colaborar na internet, há vinte anos atrás.
 
Maturidade coletiva é algo que pode demorar séculos, décadas, anos para se construída. Se hoje é “óbvio” que a colaboração em grupo nos fará avançar e inovar, se hoje um adolescente não consegue entender um mundo onde as pessoas não compartilhavam tudo a cada minuto, há cerca de duas décadas esse mundo era impensável. Quem vai querer contar tudo sobre sua vida para todos? Quem vai querer produzir algum conhecimento relevante e compartilhá-lo com desconhecidos? Quem vai querer produzir software e não cobrar nada por isso? Essas perguntas, povoavam a cabeça de muitos no final dos anos 90, uma época onde alguns queriam construir uma tecnologia para suportar a colaboração e outros não entendiam que colaborar era importante.
 
E hoje? Hoje algumas pessoas estão investindo no avanço de uma tecnologia para habilitar a descentralização. Muitos vêm valor nisso, alguns querem apenas reduzir o número de intermediários, os custos operacionais e permitir que tudo continue aí como está, só um pouco mais eficiente. O mundo está preparado para a descentralização? Acho que não. Nascemos num mundo centralizado e hierárquico. Entender um paradigma em rede e descentralizado, é difícil mesmo para os mais abertos as mudanças. Os que nasceram, e nascerão depois de nós, encontrarão o mundo desse jeito. Um mundo onde a centralização não é o único caminho. Eles, e não nós, serão capazes de criar um mundo onde a descentralização e a rede sejam conceitos “óbvios”. Talvez, dentro de uma década ou duas, ninguém se lembre mais como foi antes.
 
Apenas alguns arqueólogos do passado recente, vão lembrar que antes da tecnologia da descentralização moldar o mundo, existiam rígidas e impenetráveis hierarquias de poder. Antes da descentralização fazer parte do nosso dia a dia precisamos de intermediários para trocar valor, de empresas verticalmente hierarquizadas para reduzir os custos de transação, de grupos que atestavam a veracidade das informações. Mas ainda antes disso, muitos negócios envolvendo a tecnologia Blockchain vão quebrar, alguns serão chamados de loucos ou ingênuos, as grandes empresas tentarão (e conseguirão por um bom tempo) se apropriar do valor e manter o status quo.
 
Como disse Friedrich Nietzche: “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” A música está tocando, mas durante muito tempo a maioria não será capaz de ouvi-la. 
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