Quais as funções das criptomoedas para a sociedade?

Para o que as pessoas normais e instituições financeiras estão usando o Bitcoin (e demais criptomoedas) além de especulação?

Recentemente o prêmio Nobel em economia Joseph Stiglitz afirmou que “ninguém ainda deu argumentos da utilidade social do Bitcoin”. Em meio às inúmeras desconfianças que uma nova tecnologia traz, essa crítica é um pouco mais sutil: tecnologias que são adotadas por muita gente tem uma utilização clara. O mesmo não vale para a grande maioria das criptomoedas. O que Joseph Stiglitz põe na mesa é a pergunta: para o que as pessoas normais e instituições financeiras estão usando o Bitcoin (e demais criptomoedas) além de especulação?

Pretendo responder essas perguntas com base em pesquisadores de economia que, de fato, estudam as criptomoedas e, também, em outro prêmio Nobel em economia, Friedrich Hayek, que defendia a livre concorrência entre meios de pagamento. O artigo se divide em duas partes: no que podemos usar o Bitcoin em finanças – além dos inegáveis benefícios de usar a tecnologia blockchain – e no que as criptomoedas e suas inovações trazem para a economia.

A primeira parte começa com a pergunta: as criptomoedas são, de fato, moedas? Segundo pesquisa acadêmica recente, não exatamente. Elas possuem características tanto de moedas quanto de commodities.[1] Isso significa que o Bitcoin está entre um meio de troca – como o dólar – e uma reserva de valor como o ouro. Ele possui limitações para se consolidar como um meio de troca – por exemplo, ele demora a confirmar transações comerciais –, mas compensa isso sendo uma importante maneira de se assegurar valor ao longo do tempo.

Uma interessante análise econométrica do Bitcoin nos revela que ele responde a variações na incerteza global.[2] Nessa análise, foi verificado que, quanto maior a incerteza global, maior o valor do Bitcoin. Isso mostra um claro valor financeiro das criptomoedas: elas oferecem um mecanismo de proteção e hedge a investidores. Instrumentos com essa natureza tendem a ser bem utilizados como proteção para crises; por exemplo, o valor do ouro é associado a crises.[3] Esse é o primeiro elemento que exemplifica a natureza e valor social do Bitcoin.

Nesse caso, o caráter “commodity” do Bitcoin traz uma reserva de valor para pessoas que preveem crises, mas com menores custos de entrada que os instrumentos tradicionais relacionados a esse tipo de investimento. A democratização de instrumentos financeiros independentes de governos e empresa – de ouro às criptomoedas – possibilitam aos cidadãos se protegerem de políticas indesejadas. De uma perspectiva prática, criptomoedas trazem um instrumento de resistência. Por esse lado, medidas draconianas como a proibição de criptomoedas interessam a governos incompetentes. Esse elemento é particularmente cruel aos brasileiros na semana que houve a ideia de proibir criptomoedas.

Por outro lado, temos governos competentes que procuram regulamentar as criptomoedas para trazer segurança jurídica a interessados, porém sem asfixiar inovações. Há nisso o reconhecimento subjacente de uma segunda utilidade econômica das criptomoedas: as inovações que elas trazem têm consequências para o bem-estar social. Por mais que Stiglitz e muitos outros acreditem que as criptomoedas estão em bolha, o desenvolvimento de novas tecnologias que elas trazem é uma consequência indireta e positiva.

Entretanto, o ponto enfatizado e – talvez – verdadeiro por diversos críticos das criptomoedas é que se trata de uma bolha. Particularmente, há evidência científica de que há mecanismos de formação de bolha agindo no Bitcoin.[4] Isso pode trazer danos para investidores, de fato. Porém, isso também valia para as empresas de computação antes da “bolha da internet” dos anos 2000.[5] Deveríamos ter proibido ou dificultado o desenvolvimento de empresas de tecnologia como a Amazon ou a Apple?

Bolhas em geral, tem como consequência a morte de tecnologias ruins e a sobrevivência das ideias e empreendimentos realmente robustos. Esse processo na economia tornou-se clássico no trabalho de Joseph Schumpeter e é conhecido por destruição criadora. Antigas empresas são substituídas por novas mais eficientes. Inovações mal-sucedidas fazem parte desse processo. Em teoria organizacional, os insights de Schumpeter foram formalizados na chamada “Teoria Evolutiva da Firma” e uma conclusão é inevitável: muitas inovações perecem, mas isso não é ruim para a economia.

Nessa linha, a sarcástica resposta do matemático Nassim Taleb para Stiglitz – “Nunca vi alguém dando alguma prova de que Joseph Stiglitz é útil socialmente” – é pertinente: nem tudo precisa de justificativa socialmente aceitável para existir.[6] Podemos compreender as criptomoedas como uma parte de um processo evolutivo, sendo vistas como tecnologias competindo por sobrevivência. A competição entre as tecnologias é desejável para novos updates levarem a meios de pagamento e smart contracts cada vez mais úteis, porém tem como efeito colateral que, eventualmente, algumas criptomoedas morrerão e indivíduos que investirem nelas perderão dinheiro.

Essa competição entre moedas foi prevista por Hayek, que teorizou consequências positivas. As moedas podem ter diferentes valores, políticas de emissão, diferentes níveis de confiabilidade. De acordo com a utilidade da moeda, a adoção popular ocorre. Se as pessoas trocam de padrão monetário, elas estão revelando uma preferência por essa nova tecnologia, extraindo maior bem-estar e, provavelmente, segurança. Uma barreira a essa adoção deve ser, portanto, extremamente justificada.

Recentemente, há pesquisas estudando o que determina a adoção de uma criptomoeda como meio de troca. Um dos principais – e mais óbvios fatores – é o número de outras pessoas que a adotam.[7] Por exemplo, se só eu uso a criptomoeda “Dollynho”, não teria com quem negociar ou trocá-la; pode-se ver que seu valor de uso é baixo. Entretanto, se o governo americano troca o Dólar pelo Dolarcoin e todos passam a usá-la, a utilidade de usar a moeda aumenta. Se, mesmo com todas as dificuldades, as criptomoedas estão sendo adotadas, provavelmente a tecnologia é desejável da perspectiva tecnológica ao menos, havendo nesse ponto mais uma função social.

Pode-se ver, portanto, que não faltam motivos para achar as criptomoedas socialmente desejáveis. Creio, como economista, que há uma má vontade de meus colegas de profissão de entenderem os potenciais dessa moeda. Claro que há discussões importantes a serem realizadas – o bitcoin ser deflacionário é problemático? Como incentivar a adoção de uma moeda com inflação dentro de uma meta aceitável? Como os mecanismos de política monetária ficam na presença de criptomoedas? –, mas negar a mudança real que as criptomoedas trouxeram não é o caminho para entendermos e melhorarmos o fenômeno. Felizmente, creio também que a força das criptomoedas é suficiente para, no futuro breve, economistas estudarem suas consequências de maneira séria.

 

 

 

[1] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1544612315001038

[2] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1544612317300363

[3] http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1057521914000933

[4] http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0165176515000890

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolha_da_Internet

[6] https://twitter.com/nntaleb/status/941253503489576960

[7] https://www.mercatus.org/system/files/Luther_CryptocurrenciesNetworkEffects_v1.pdf

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